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O MENINO DO QUARTO ESCURO

Img: Google

Talvez esse seja o mais tenso texto que já escrevi, e vai ser assim ,sem ensaios e sem meio termos.
Eu tinha entre oito e nove anos, morava com meus pais e irmãos, sempre fui uma criança um pouco afeminada, e por isso talvez eu tenha sido vítima do que aconteceu.
Algumas vezes eu me referi a isso com um estupro, hoje falo disso como uma violência sexual. por que na minha cabeça isso tem dois pesos diferentes, explico isso mais pra frente.
Quem era ele: de repente esse rapaz começou a frequentar minha casa, tinha ficado amigo do meu irmão que tinha um pouco mais de três anos a mais que eu, uma criança também, tenho minhas dúvidas se esse meu irmão também não passou por isso, nunca tive a coragem de perguntar e não posso mais fazê-lo. Eu me pergunto: Que pais em sã consciência deixa uma pessoa de fora frequentar a casa com tanta intimidade assim?
Pode ficar confuso a forma de escrever, talvez porque eu não consigo ver tudo muito claramente,  talvez porque já faz mais de vinte anos, hoje não posso mais denunciá-lo por ter feito o que fez, pelo que pesquisei esses crimes tem data pra prescrever, e a ferida e a dor que tem dentro da gente? Quem para pra pensar e se importar se isso não dói toda vez que a gente repassa isso na memória?  Queria ter a coragem de gritar pro mundo e dizer tudo o que me sufoca aqui, mas não tive até hoje e nem sei se vou ter um dia. Talvez também por que eu não quero magoar alguns dos meus, alguns que poderiam se colocar em minha defesa, mas nunca conseguiram fazer.
Sou gay e hoje sou bem resolvido com essa questão, mas por muito tempo antes de me assumir me culpei, tinha irmão que sempre me tratou naqueles termos: o bichinha, o viadinho, o que tem jeito de mulherzinha, talvez dentro de mim tenha essa mágoa por esperar uma defesa que nunca houve, talvez nunca vou saber.
Me desculpe por desviar tanto do assunto, mas como disse, sem ensaios. Fica um pouco difícil de organizar as ideias.
Eu não tinha nem dez anos quando 'ele' começou a frequentar minha casa, lembro claramente dele me beijando, dele fazendo sexo comigo por baixo da coberta, sem se importar com as pessoas que tinham em casa; de passear comigo de carro sentado ao seu colo enquanto me penetrava; de estar de pé em privada de postos de gasolina enquanto ele fazia sexo oral em mim. Verbalizar isso é difícil demais, mas é necessário.
Olhando hoje com um certo distanciamento eu não sei se isso foi um estupro, como eu disse antes, eu trato como uma violência sexual porque eu era uma criança, apenas uma criança que devia viver como tal. Mas eu era gay e estar com um homem talvez me fizesse sentir algo bom sexualmente falando, entretanto eu era uma criança, e não podia ou deveria ter esse tipo de sentimento.
Elas devem ser livres pra viver sua infância, sua inocência, e isso tudo foi tirado de mim naquele momento.
E eu cresci com aquele medo, como vítima que se sentia culpada, com o medo de pedir ajuda, e hoje tendo passado mais de duas décadas, isso ainda me sufoca.
Me sentia culpado dentro e fora de casa, por ser que eu era, por ter os sentimentos que eu tinha, por escutar que tinha que me portar como homem e não agir como uma menininha.

mas A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA


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